Strange fruit é o título de uma música cantada por Billie Holiday. Fala do exacerbado racismo praticado no sul dos EUA nos séculos XIX e XX. Ali, por qualquer motivo ou desmotivo, pessoas negras eram enforcadas, queimadas e penduradas em árvores. Estranhas frutas eram aquelas que pendiam das árvores, exalando cheiro de carne queimada que se mesclava ao perfume das magnólias - este estranho casamento de odores se impregnava na memória olfativa dos espectadores destes espetáculos macabros e não se apagava jamais.
Esta canção causa em mim uma revolta física e emocional cada vez que a ouço. É meu sangue mestiço fervendo nas veias e saindo por meus poros em forma de suor estranhamente gelado.
Mas, meu pensamento voa e me traz de encontro às estranhas frutas que vejo hoje, não penduradas nas árvores mas, sim, largadas - como num fim de feira - nas calçadas das grandes cidades. É também um macabro espetáculo.
São jovens apodrecidos que exalam cheiros estranhos - são frutos tirados dos cestos por estarem enodoados indelevelmente pelos vícios químicos da modernidade. São frutos "doentes" que ninguém quer junto dos "sãos".
São estes frutos estranhos, abandonados à sua própria sorte, que pregados nas cruzes da intolerância exalam o mau-cheiro da sociedade que os contaminou, sufocou e excluiu de seu seio. São estes frutos estranhos, os filhos narcotizados de uma gente que se quer perfume de magnólia mas é fétida como carne estragada.
São estes frutos estranhos, cujo sabor amargo trava a língua e a garganta, que vão provocar um imenso vômito social e eliminar mazelas e toxinas de um organismo corrompido por séculos de condutas equivocadas.
Strange Fruit (autoria desconhecida)
Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves an blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.
Pastoral scene of the gallant south,
Of the bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.
Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.
Livre tradução
As árvores do sul carregam a fruta estranha,
O sangue nas folhas e o sangue na raiz,
Corpos negros balançam na brisa do sul,
Fruta estranha pendurada nas árvores.
Cena pastoral do imponente sul,
Olhos salientes e bocas retorcidas,
Perfume das magnólias, doce e fresco,
E então, o repentino cheiro da carne queimada.
Eis aqui a fruta para que os corvos a arranquem,
Para que a chuva a recolha, para que o vento a sugue,
Para que o sol a apodreça, para que as árvores a derrubem,
Eis aqui uma colheita estranha e amarga.