Que diferença há entre o homem sábio e o homem tolo no que concerne à busca da vida feliz?
Ambos - o sábio e o tolo - almejam alcançar a felicidade e o bem-estar pessoal. Ambos, nesta busca, procuram palmilhar a boa estrada da vida. Como se relacionar, então, com os bens materiais - as riquezas? Esta é a questão que dependendo da solução escolhida diferencia o sábio do tolo: da administração e utilização das riquezas materiais advêm diversas situações que encadeadas determinam um ou outro estilo de vida.
O sábio faz das riquezas escravas e delas se serve sem incorrer em dependência, ao contrário do tolo que permite que as riquezas se assenhorem dele e conduzam sua vida. Outros, mais tolos ainda, ambicionam riquezas sem possuí-las e a mercê deste intenso desejo de possuir nem sequer vislumbram a essência do bem - tão dominados estão seus sentimentos, ações e pensamentos. A cobiça impede que o tolo se acerque do bem e da virtude falseando, assim, sua escala de valores morais.
O senso comum determina que o sábio deve ser homem despojado de quaisquer bens materiais posto que a posse destes se afiguraria ostentação - comportamento não condizente com o estereótipo da postura imaginada para um sábio. Ledo engano! Nada mais tolo! Por que razão deveria o sábio depender da benemerência alheia? Sábio é aquele que administra suas riquezas - de origem honesta e sem manchas de sangue alheio - sem ansiedade e sem subterfúgios. O sábio é parcimonioso na lida com seus bens materiais pois estes não determinam seu estilo de vida contrariamente do tolo que é aquilo que possui.
Ao imaginar-se que o sábio deva ser o homem afeito às agruras de uma vida medíocre em termos financeiros, de saúde ou de vigor e beleza físicos, pretende-se erroneamente entender que este ao lidar cotidianamente com situações adversas estaria se preparando de forma adequada para atingir um estado conceitual de virtude. Na verdade, aquele que tem o bom e o belo e que deles se utiliza com temperança e discernimento, sem tornar-se presa indefesa, demonstra a sapiência de possuir riquezas e considera-las "como um vento favorável que impele o navegante, como um belo dia e um lugar ensolarado na bruma fria do inverno". Ao passo que o tolo mal sabendo lidar com suas posses, contaminado que é pela cobiça de garantir status dentro da comunidade através do referendo de seus bens materiais, atormenta-se na incessante busca de amealhar mais e mais riquezas.
Além das riquezas materiais não poderíamos nos esquecer das considerações acerca das riquezas intelectuais ou espirituais, posto que são diferenças ainda mais marcantes entre o sábio e o tolo. A virtude não se encontra de todo apartada do prazer, restando apenas demarcar que o prazer não é um bem que se busque. O verdadeiro prazer decorre da temperança, do saber conduzir-se diante da tentações do dia-a-dia: a virtude deve governar o prazer.
Assim, podemos entender que "a vida feliz é a que concorda com a sua natureza", donde corpo e mente sãos representam o conjunto de condições almejadas pelo sábio para conduzir sua vida.
O homem enredado pelos vícios ensejados pela cobiça está longe da virtude e da verdade, sendo, portanto, um tolo. A ele - o tolo - os prazeres consomem a capacidade de discernimento ditando um comportamento desajuizado e repleto de erros, sejam conceituais ou de atitudes.
Não queremos fazer aqui a apologia da virtude como entendida pelo senso comum. Queremos, sim, é concordar com as palavras de Sêneca, expressas há tantos séculos, e, que tranpostas para os dias de hoje poderiam pontuar um manual de ética para as questões de política e de cidadania. Percebemos que os padrões que determinam os comportamentos sociais sempre foram os mesmos desde o começo dos tempos. O homem, visto como ser social, sempre buscou o reconhecimento de seus sememlhantes impetrando nesta busca toda sorte de recursos, sejam éticos ou não.
Acercar-se da fórmula mais fácil de ascensão social e econômica, juntando-se aos que exercem poder indiscriminado sobre a comunidade não é nenhuma inovação. desde os primórdios da humanidade, os mais fracos são dominados pelos mais fortes - é a lei da preservação da raça: sobrevivem os mais bem dotados, seja física, intelectual ou economicamente. O aspecto moral fica fora desta escala de valores ditada pela busca desenfreada de poder.
E, é quando o prazer sobrepõe-se à racionalidade que o homem pede sua condição de sapiens, deixando-se comandar por instintos animalescos. Reside na condição primeira e imprescindível de considerar uma "vida feliz" como aquela que é ditada pelo juízo verdadeiro das coisas, ou seja, como aquela que é inspirada pela retidão dos atos e do caráter, a fundamental diferença entre o homem sábio e o homem tolo. Lamentável é o fato de que a natureza humana seja mais propensa aos atos tolos desprovidos de razão, posto que expressos pela necessidade do prazer imediato, do que aos atos sábios, normalmente mais morosos na visibilidade dos resultados.